domingo, agosto 03, 2003

Amizades perigosas

O meu pai, que já morreu, era amigo de Otelo Saraiva de Carvalho. Não digo conhecido, digo amigo porque era de amizade que se tratava. Uma amizade que vinha de longe e sempre se sobrepôs ao abismo ideológico que separava ambos. Eu, estive com o Otelo um punhado de vezes, a última das quais há quatro ou cinco anos, e aprendi com o meu pai a respeitá-lo enquanto pessoa privada, sem dúvida decente e leal. Ao meu pai, imagine-se, custava aceitar que Otelo fosse capaz das barbaridades que se lhe atribuem, quer como líder do Copcon, quer como alegado chefe das FP-25. Eu próprio faço-o com renitência e, apesar de tudo, irritam-me notícias semelhantes à que anteontem saiu no «Independente», destinadas a orientar o ódio de uma imensa direita e de certa esquerda.
A verdade é que, se calhar, o meu pai estava enganado e eu estou enganado. Segundo toda a evidência, aquela figura simpática e generosa abriga a mesma criatura que assinava mandados de captura em branco e comandava uma rede terrorista.
Contactar com Otelo, porém, anulou a possibilidade de avaliar, com justeza, Otelo. Isto vale para ele e para qualquer outro. Os juízos de valor implicam distância; a proximidade desfoca.
Eis uma explicação razoável para o estado da nossa opinião publicada. Salvo excepções, não temos comentadores, temos mensageiros, que passam recados nas páginas dedicadas ao efeito, exaltando compinchas, zurzindo desafectos. Nem vale a pena mencionar o espartilho partidário: Lisboa é pequena e provinciana (o Porto é pior), os restaurantes de jeito escasseiam e os bares em voga, por definição, são poucos. Toda a gente se roça mútua e publicamente aqui e ali. Antipatiza-se com uns, simpatiza-se com os restantes, não importa: o resultado é uma enviesada desgraça. Lembro-me de um «vulto» da crónica nacional a quem apetecia desancar Paulo Portas, mas que não o fazia «por ser amigo dele». A fidelidade ao amigo ficou-lhe bem; a profissão nem tanto.
À semelhança do IRS dos políticos, aos cronistas deveria ser exigida e tornada pública a declaração anual de relações pessoais. Ao menos perceberíamos de quem se fala quando se fala da «grande promessa que o parlamento revelou» ou desse «ministro emocionalmente débil, tendencialmente autoritário e um acabado cabrão». Ou sim, ou sopas. Os blogues, Deus os guarde, começaram pelo «sim», mas alguns já arrastam a colher para as «sopas». É a arte de ser português.