quinta-feira, agosto 21, 2003

As raízes do sucesso

Enquanto arrumava velharias, descobri um guia «de A a Z» da Universidade Moderna, distribuído com o «Expresso» de 23 de Agosto de 1997. O livrinho, de sessenta e três absorventes páginas, além de ilustrar a verdadeira essência da instituição, impossível de perceber nas sessões do julgamento anteontem retomado, proporciona quinze minutos de uma hilaridade só comparável à obra escrita de Woody Allen e aos diários de Saramago. Em favor do respeito devido aos autores (aliás, modestamente anónimos), as citações são textuais e os comentários limitar-se-ão à brevidade exigível.
Apesar do bonito e revelador lema que à época ostentava, «O Espírito Move a Matéria» (pois move), o conceito orientador da Moderna parecia ser o de «núcleo». De facto, esta universidade, sempre «atenta à realidade» (hum, hum), contava com uma série infindável de «núcleos», dos quais me permito referir o «núcleo» de Moda e Design, o «núcleo» de Vídeo, o «núcleo» de Rádio, o «núcleo» de Música (com cinco requisitadas «tunas»), o «núcleo» de Teatro e, destacando-se na «plêiade de actividades culturais em movimento», o célebre «núcleo» de Filatelia.
Não obstante a importância dos «núcleos», a universidade não podia desprezar o desporto, pois «Corpo São em Mente Sã» era (é?) outro dos seus lemas. Apetrechados do apoio da Reitoria, os alunos participavam «empenhada e livremente» (supunha-se ser a ordem arbitrária) em tantos jogos que só lhes devia faltar a bisca, e mesmo esta esteve por um triz. Se não acreditam, reparem: futebol, basquetebol, andebol, voleibol, vela, equitação, remo e «karting». O «karting», como seria de esperar, era a jóia da coroa, sendo até responsável pela «transferência do ano!» (assim, com exclamação e tudo). Interroga-se o leitor sobre o sujeito deste prodígio, mas sem razão. Nem a distância face aos meandros académicos desculpa que se ignore Gonçalo Gomes, um «jovem», um «modelo para a sua geração», corredor intrépido de «Fórmula Opel» e, há seis anos pelo menos, feliz discente de Direito da competitiva casa.
Os automóveis velozes fizeram história por aqueles lados, porém Gonçalo não era o único a acumular prazer e estudo. Os demais alunos, modelados na imagem do ídolo, também conseguiam, entre a participação num «núcleo» e uma prova de equitação, frequentar, imagine-se, alguns cursos. Que cursos? Aqui, e mais uma vez, o jovial exotismo da Moderna entrava em campo. Para lá do Direito e da Arquitectura, bem como de diversas engenharias (dos «Transportes» à «Automação e Controlo»), todos vorazes sorvedores de recursos, este «ambicioso» (o adjectivo não é meu) templo do saber dedicava-se ainda às Ciências do Ambiente, à Gestão do Desenvolvimento e Cooperação, à Informática de Gestão, à Organização e Gestão de Empresas («gestão» era outra ideia-chave) e à Investigação Social Aplicada (de facto tratava-se de Assistência Social, mas soava muitíssimo melhor). A culminar, seria imperdoável esquecer a revolucionária formação em Psicopedagogia Curativo (sic, incluindo o erro no género), onde pontificavam, sem ironia, disciplinas de vanguarda como a Antropologia do Homem Perturbável, a Biopsissociologia da Pedagogia e a imorredoura Antropopsicossociologias da Aprendizagem, entre outras.
Se acrescentarmos que esta universidade dispunha de professores como Camilo José Cela, Gorbatchev ou Ximenes Belo (infelizmente pouco vistos nas instalações), só restava saber como tais maravilhas chegavam ao conhecimento de um público vasto e ansioso por semelhantes luzes. Fácil, fácil, bastando para isso estar «na dianteira das inovações tecnológicas e de Marketing» e assim «colocar virtualmente nos relvados dos campos de futebol o seu logotipo, no decurso de transmissões em directo, inclusive internacionais». As canetas, as «parkas» e os porta-chaves com a sua marca, então à venda, também ajudavam a resolver o publicitário problema.
A terminar, dizia-se apenas que a universidade «assentava, juridicamente, numa cooperativa de ensino sem fins lucrativos» (isso nós já juridicamente sabemos), e que a propina mensal variava entre os 33 e os 38 contos, mesmo à justa para uma aquisição decente na Loja das Meias.