quarta-feira, agosto 13, 2003

A fome dos outros

A propósito de um artigo na Spectator, Manuel Falcão lembra o turismo de massas em países miseráveis, cada vez mais em voga. Partilho a estranheza, embora desde há uns anos com um critério de ressalva: caso queira, vou a qualquer país, pobre ou não, em que vigore uma democracia, real ou assemelhada. Isto é, a menos que me sequestrem, nunca porei os pés na República Dominicana ou na Cuba totalitária; mas fui ao México há menos de um ano e, salvo os excessos climáticos, não me arrependi. De resto, acho que para o turista médio a questão da miséria nem sequer se coloca, como atractivo ou factor de repulsa: contaram-me de um sujeito, bancário, que passou uma semana num «resort» das Caraíbas, e que, na volta, não conseguiu nomear o país em que estivera. Havendo sol e paisagem que encha uma câmara de vídeo, o turista médio fica satisfeito. Ele lá sabe. Quanto ao Brasil, julgo que M.F. se refere ao «paradisíaco Nordeste» dos folhetos, que é um continente de caciques e fome, bordado a leste por uma linha de areia. Se é isso, concordo inteiramente (dos sertões, interesso-me pela Revolta de Canudos e pouco mais, mas os livros bastam-me), e, na minha vida profissional, devo ter recusado umas quatro ou cinco viagens pagas a tal exotismo. Mas do Rio de Janeiro e, até certo ponto, de São Paulo, eu gosto muito. Concedo que entre a lei dos «Coronéis» e a lei dos gangues favelados talvez sobre idêntico espaço para a democracia. Que se lixe: baças e trémulas, em Ipanema ainda piscam as luzinhas da civilização.