sexta-feira, agosto 08, 2003

França contemporânea: a straight story.

As reacções dos do costume ao encerramento da tal Livraria Francesa suscitaram diversos comentários nos blogues (Abrupto, Contra a Corrente, Intermitente, Reflexos). Subscrevo sem problemas a maioria das opiniões, que sustentam a justa superioridade actual da cultura anglo-saxónica. De tão evidente, dispensa comentários. Mas concedam-me uma lágrima de solidariedade: é que continuo a comover-me com as pessoas que se agarram, desesperadas, às ruínas que a França legou. E principalmente com aquelas que percebem a vacuidade das suas certezas e, ainda assim, não desistem, sob pena de negarem a própria existência. Toda a gente sabe que «a ideia da França», da França enquanto pólo cultural, terminou de vez com Estaline, que converteu uma «intelectualidade» parisiense pronta a combater, com a demagogia em punho, o ameaçador Império que se levantava do outro lado do Atlântico. De súbito, o centro cultural que permitira Hugo e Monet passou a produzir reles emissários do Partido. Sartre, hoje uma anedota de salão, personificou talvez na perfeição este «intelectual» empenhado, mas as cópias eram inúmeras, e todas mecânicas, e todas orientadas para o sol de Moscovo. Não é por acaso que, dentro da literatura francesa coeva à exposição oficial dos Gulag, só os anti-marxistas, como Camus, Céline e Vian, ou os marxistas desencantados a horas, como Malraux e Gide, tenham sobrevivido à euforia do tempo e mereçam o reconhecimento civilizado de que, aliás, dispõem. Já o grosso da «inteligência» francesa, órfã do Grande Camarada após a tardia «revelação» da noite estalinista, optou por dissolver certa vergonha (a que nem eram muito dados, diga-se) em obras estéreis, indulgentes e masturbatórias. Sobretudo, apostaram com firmeza numa mistura repugnante de ininteligibilidade, «ciências» sociais e (saudades de Rousseau) relativismo. A incompreensão mascarava a ausência de talento; as «ciências» simulavam credibilidade; o relativismo afagava os selvagens que engoliam a fraude. Dessa pocilga saíram os Althusser, as Duras, os Foucault, os Lacan. E Portugal, como bom Terceiro Mundo, destacou-se no fornecimento de selvagens a alfabetizar (?) nesse caldo absurdo. Em 2003, eles aí andam, ruminando na prosa poética da seita o fecho de uma livraria que a ninguém importa. O mundo passou, eles ficaram, a debater-se no entulho. É por isso que me comovem.