sexta-feira, agosto 29, 2003

Gostos discutem-se II

Para o Comprometido Espectador, o Contra a Corrente, o Retorta e o Terras do Nunca:

Vamos com calma. Eu prefiro de longe o Leonard Cohen à Joni Mitchell. Dentro de uma certa (e discutível) linhagem pop não trocava os discos dele por nada. Tenho todas as biografias possíveis. Os vídeos. O solitário dvd. E foi dele o primeiro concerto que vi, no Dramático de Cascais, em 1985 (comecei pelo céu, depois foi sempre a descer até à abstinência actual, e não acredito que o João Gilberto venha em Outubro).
O que não me impede de reconhecer, de resto à semelhança do próprio LC em diversas ocasiões (parece que eles são velhos amigos), a muito superior musicalidade da senhorita Mitchell, tanto no período folk como nas experiências jazzy ou étnicas de «Hejira» a «Mingus». Verdade que ela não faz um grande disco há vinte e tal anos, mas o último do Cohen (ai) é uma pequenina vergonha, donde me cheira que o «The Future» (de 1992) jamais justificará o nome.
Sobre a devoção pela JM, permito-me informar (se calhar, toda a gente conhece), há um ensaio (olha a pompa) excelente do Miguel Esteves Cardoso, naquela que foi, suponho, a estreia editorial dele: é a tradução de uma palermice francesa chamada «Pop Music/Rock», para a qual o MEC escreveu um apêndice de cento e poucas páginas com uma discografia crítica da década de 70. E que, naturalmente, vale bem o livro. O livro, para aí de 1981, é uma edição da Regra do Jogo e tem, ó inclemência, o Mick Jagger na capa.

E agora três razões para que o Comprometido Espectador comece a detestar-me.
1) Gosto do Canadá, não só pelo LC e pela JM. Gosto dos lagos, das Rocky Mountains, do Jim Carrey, do Lorne Michaels, do Michael J. Fox (!). Deus me ajude: eu até gosto do «Canada Bacon», do charlatão do Moore. E gosto, acima de tudo, do hino, o mais bonito que há.
2) Gosto de folk, escola Greenwich Village. Não tanto da convencional, com «mensagem» e canga militante, mas da que foi «puxada» aos limites, pelo Dylan no «Blonde on Blonde» e pelo Tim Buckley (quase sempre). Às escondidas, porém, chego a ouvir Tim Hardin e o «Pleasures of the Harbor», do Phil Ochs.
3) A JM tem letras «lamentáveis». E outras que são um assombro, vide, por exemplo «A Case of You», do «Blue» e «Song for Sharon», do «Hejira». Ou, que se lixe a franqueza, o «Both Sides Now», que eu adoro sobretudo na genial versão para elevador do Sinatra.