domingo, agosto 10, 2003

Humility bites

Gosto de estações de serviço, as «bombas de gasolina». Daquelas grandes, com café e jornais, abertas toda a noite. Tenho uma assim ao pé de casa, que abriu há uns três anos e mudou a minha existência. Vou lá quase diariamente, sobretudo de madrugada, quando faltam os cigarros, espreitar fogachos de humanidade no meio da cidade adormecida. É o casal eufórico em busca de preservativos. O louco, com bicicleta e farnel, que montou arraiais junto à lavagem automática e dali não sai há semanas. Os trabalhadores nocturnos, cuja pausa para o lanche ocorre às duas da manhã. Os clientes indistintos, como eu espero ser. Odeio metáforas, mas em quase todas as estações que conheço, repete-se este microcosmos instável, que apropriadamente se alimenta de sucessivas renovações, ganhos e perdas. Desde que me lembro, intercalo os longos percursos de automóvel com paragens sacramentais, de hora a hora, de acordo com as «bombas» disponíveis. Os meus companheiros de viagem, quando os há, toleram-me o vício, embora não pareçam partilhá-lo. Aos poucos, nas estradas que frequento mais, elejo favoritas. Na A1, prefiro sempre Aveiras e Mealhada. Mas a minha preferida, que eu pensava obscura e exclusiva, fica no IP4, perto da saída para Mirandela. Vindo de sudoeste, a subir as montanhas escuras, vejo-lhe antecipadamente as luzes e salivo de gozo. Gozo fugaz: em circunstâncias normais, nunca me lembro dessa estação. Só que ontem houve lá um carro que irrompeu em chamas. E, enquanto ouvia a notícia na Tsf, sobressaltei-me: de repente, percebi que a rotina daquela «bomba» prosseguia sem mim. Estas coisas não se explicam, mas, durante uns instantes, experimentei uma traição imensa. E depois a certeza de sermos inteiramente dispensáveis ao Mundo.