terça-feira, agosto 05, 2003

Porto, capital da cultura

Noite morna. Estou com amigos a tomar café. Um cliente bêbado, murmurando insanidades, passeia-se pelas mesas, ante vasta indiferença. De súbito, o dono do estabelecimento dispara na direcção da rua com o bêbado nos braços. Eu e os meus amigos acorremos à cena, junto com os populares da praxe, a tempo de ver o dono do café empunhar uma vassoura e o outro continuar o discurso incompreensível.
Palavra puxa adereço e, no segundo acto, vá lá saber-se a razão, é o cliente inadaptado que segura a vassoura: o pequeno proprietário ergue agora uma cadeira. Decerto um interlúdio, porque no instante seguinte cadeira e vassoura são misteriosamente removidas para dar relevo a um x-acto, a cargo do bêbado.
Bêbado ou arquitecto. A peça começava a deixar-se perceber: a fala emaranhada podia ser, afinal, uma língua estrangeira, por exemplo o holandês. E, pela óbvia instabilidade emocional, era bem capaz tratar-se do sujeito que concebeu a Casa da Música.
O enredo já prendia, mas como quem puxa de um x-acto, puxa de um tira-linhas, achei melhor recuar uns metros. Até para facilitar a chegada triunfal de dois carros da PSP, que em meros vinte minutos irromperam feito relâmpagos.
Depois, lamento confessar, achei o final mal resolvido. O arquitecto holandês foi mandado em paz, enquanto ameaçava de morte tudo o que respirasse em redor; o dono do café tremia e suava, num esforço dramático algo forçado; e os polícias, os polícias cirandavam entre populares, interrogando-se acerca da própria condição (Pirandello em excesso).
Porém, e no cômputo geral, como sói dizer-se, o espectáculo valeu a pena. A ver.