segunda-feira, agosto 18, 2003

Prefiro a tal volta ao mundo

Não bastava a história do Acontece. O actual Governo faz o possível e o impossível para desacreditar a cultura nacional. Uma coisa, muito ao jeito do PS, é financiar curtas-metragens de promessas do cinema português; outra coisa é transmiti-las. Verdade que as passam na RTP2, madrugada de domingo, pino do Verão. Mas a dúzia e meia de espectadores que depara com o espectáculo fica para sempre convertida à visão «economicista» da cultura, que tanto aflige o dr. Carrilho. Explico melhor: há um programa, que não conhecia, chamado Noites Curtas do Onda-Curta, um nome que já em si define uma atitude. Na emissão de ontem, o programa constou de três filmes. Um leigo sabe que são filmes porque, comprovadamente, houve uma câmara que registou a fala (rara) e o movimento (escasso) de uns sujeitos. E só. No resto, não se vislumbra a mais vaga semelhança entre esta espécie de produtos e a forma artística que nos legou «Young Mr. Lincoln». Claro que, aos primeiros instantes, eu e quem estava comigo ainda tomámos aquilo à laia de comédia não deliberada, um género assaz subvalorizado. Quando irrompeu o terceiro esboço de «filme», parece que baseado no famoso escritor Mia Couto, já estávamos dispostos a espancar severamente os autores da monstruosidade. E a processar judicialmente a rapaziada que, a expensas nossas, decidiu pagá-la. Mas são fulgores momentâneos. Depois uma pessoa bebe outro copo de vinho, chega-se à noite morna pelo alpendre, olha as insondáveis constelações, e deixa correr. Ser português também exige este desprendimento quase filosófico. Ou então a piada perdia-se.