sábado, agosto 09, 2003

«Share» solidário

Quando não me resta opção, espreito as reportagens televisivas dos incêndios. Em todos os canais nacionais, os critérios de aprovação das «peças» são: montante de fogos exibidos; grau de proximidade às chamas; quantidade de populares interpelados em aflição; percentagem de planos aos solavancos; números de bombeiros interrompidos pela acção dos «jornalistas». Ganha quem mostrar mais, mais perto, mais «tremido», durante mais tempo. Dado o empenho geral, palpita-me que a contenda vai acabar empatada. Pelo sim, pelo não, as estações já arrancaram com uma competição paralela: cada uma promove uma campanha para ajudar as vítimas dos incêndios, com abertura de contas, organização de pândegas, etc. De dez em dez minutos, transmite anúncios alusivos, a relembrar-nos a sua intrínseca bondade. Disseram-me também que, nos rodapés dos noticiários, estas gentis empresas vão contabilizando o apuro entretanto obtido, numa correria humanitária para que as desgraças de uns sejam as audiências de outros. Alguém chamou «vergonhosos» aos fogos correntes. Peço licença: independentemente das causas, o fogo é uma catástrofe. Vergonha é isto.