quarta-feira, agosto 06, 2003

Turn on, tunning, drop out

Em pleno gozo do pasmo que antecede as férias, varri a madrugada no sofá, contemplando um programa alemão sobre automóveis. Para mim, foi uma experiência inédita (e, definitivamente, única). Mas suponho que os assíduos desta espécie de produto acabam por pagar o preço: recentemente, um estudo conjunto de 5 universidades australianas revelou que o confronto entre os «bólides de sonho» e os destroços da realidade pode provocar mazelas graves. Os mais atentos dispensavam o aval científico. Com certeza já notaram uma espécie de carros que causam forte impressão. São aquelas coisas pequeninas com uma grade no meio e um moço, de óculos acima da testa, à frente. Como sabem, circulam sempre com as janelas semi-abertas e uma aparelhagem capaz de implodir um edifício de betão. Curiosamente, não ouvem música, mas uma audaciosa mistura de batuques do Burundi com o ruído de leitura das cassetes do ZX Spectrum, ambos em fast-reward.
Durante muito tempo, eu não percebia, entre outros pormenores, a função da grade. Agora, um amigo, que estuda comportamentos desviantes (à escala nacional), explicou-me: serve para que os condutores não tentem fugir. Não convém revelar estes dados ao público, mas as portas desses carrinhos estão permanentemente fechadas, os vidros só descem a metade por razões de segurança e, além disso, oculto na parte de trás, está um representante do corpo clínico que acompanha estes infelizes, pronto para lhes aviar uma seringa de Valium no pescoço, caso os pobres se desorientem em demasia - por exemplo ante a passagem de um Porsche. Uma situação extrema, felizmente pouco usual. A maioria das vezes, duas ou três réplicas da Matchbox são suficientes para acalmar a rapaziada.
Quanto ao barulho que os carrinhos difundem a dezoito quarteirões de distância, o meu amigo não quis adiantar grandes pormenores. Mas parece que o «tunning», como acho que popularmente se designa a fogosa sanfona, é sigla para «The Useless, Numb, Not Interesting, Noisy Guy». E consta que faz parte da terapia, embora a Organização Mundial de Saúde o tenha desaconselhado pela sua extrema crueldade.
Os óculos acima da testa é que nem o meu amigo arriscou explicar.