segunda-feira, agosto 04, 2003

Um Holocausto particular

«Lenny», de Bob Fosse, saiu em dvd. Não o via há quinze anos, este falso documentário filmado à Cassavetes. Mas «Lenny», mais do que Fosse, é Dustin Hoffman e Lenny Bruce, e é a fronteira entre ambos que, ao longo de duas horas, desistimos de tentar definir. No entanto, fora da fita, as diferenças existem. Hoffman, então já estrela, tornou-se domínio público e dispensa comentários; LB nem tanto.
Antes de mais, os lugares-comuns: LB, junto com Mort Sahl, criou a moderna stand-up comedy (dizer americana será pleonasmo), enterrando fundo as sementes que dariam, por exemplo, Woody Allen e Richard Pryor. Com Sahl, LB foi talvez o primeiro a subir ao palco em traje de rua e o primeiro a fazer das notícias do dia, literalmente, de jornal em punho, a matéria do riso. Ambos judeus, o que é regra no meio, revolucionaram por instantes a figura do schlemiel, o inadapatado anónimo, que em seguida Allen devolveria ao cânone em versão actualizada e singularmente genial. Durante um breve tempo - não por acaso o do pós-guerra - com Sahl e LB, o judeuzinho urbano e tímido arriscou o salto, falou alto e grosso, enfureceu-se.
Depois, Sahl, limitado à sátira política, ingressou, aos poucos e até hoje, em relativa obscuridade. LB, patriota à sua maneira, apolítico e no máximo anticomunista, arriscou demasiado em todas as direcções: «Seis milhões de judeus encontrados vivos na Argentina.» No auge, que chegou a tê-lo, começou a espiral de prisões, droga, novas prisões e julgamentos que o arruinaram emocional e financeiramente. Em final de carreira e de vida, abdicou do humor e fez-se caso jurídico, resumindo as actuações a prédicas pseudo-legalistas.
O schlemiel irado cedeu a vez à bandeira pela liberdade de expressão nos EUA, cujos limites drasticamente alargou. Mas a bandeira só foi hasteada quando LB já não a podia saudar. Não contando a seringa e o garrote, morreu no centro de um vazio imenso e, para ele, incompreensível. Fim mais judaico, é difícil. Aliás, é esse fim silencioso e absurdo que germina e se adivinha durante os 111 minutos de «Lenny». E é por isso que «Lenny», fita macabra, é um assombro. Curiosamente, o próprio LB, ouvido agora em gravações várias, nem por isso. Se calhar, nunca o quis ser.