segunda-feira, agosto 25, 2003

Vrum, vrum

Em tempo de férias, o televisor vive confinado a um encantador desprezo. A excepção, naturalmente, chega aos domingos, em que há sempre alguém (quem?) que sintoniza o aparelho na Fórmula 1. Existem inúmeros desportos chatos, mas nunca vi nenhum tão aflitivo quanto este, sobretudo se as consequências da noite de sábado irrompem a reclamar Gurosan. Aliás, nem chego a perceber o que é que a Fórmula 1 tem a ver com desporto. Há uns carros horrendos disfarçados de maços de cigarros; há uns totós com mais distintivos no traje do que um veterano da Queima das Fitas; há um buraquinho nos carros por onde os totós entram; e há bandos de malucos que pagam para assistir ao «espectáculo». Se fossem olhar os «tróleis» das romarias saía-lhes de borla, e não tinham de suportar o ruído mais asqueroso da Terra, depois da siderurgia da Maia e da voz da Dulce Pontes.
Pior: nas minhas vastas investigações, pude constatar que há gente capaz de «torcer» por uma determinada marca de automóveis. Desse grupo, 87,3% «torcem» justamente pela Ferrari, a fábrica italiana que abastece os traficantes de droga de Bogotá a Moscovo. Não tendo nada a ver com a droga, julgo eu, existe de facto um estranhíssimo culto da Ferrari entre alguns cidadãos anónimos e honestos do meu país. Trata-se de gente que estremece só de avistar um «Testarossa» ( «cabecinha corada»?), e que se baba enquanto discorre acerca da «mística» do «cavalo preto». Será um vírus?
Por mim, estou convencido de que é apenas o último estádio do capitalismo: as pessoas deixam de se rever nas famílias, nos amigos, na comunidade em que vivem, e passam a admirar empresas longínquas, sobre cujos lucros não metem prego nem estopa. Um triste dia, às bandeiras da Ferrari juntar-se-ão as da IBM, ou da Texaco, e em alegre comunhão desfilaremos à porta da bolsa de valores, celebrando o «gestor do mês», o «contrato por objectivos do ano» ou a «fusão da década».
Mal por mal, antes continuarmos a apoiar a selecção nacional de futebol. Joga que é uma desgraça, mas ao menos, e que eu saiba, ainda é património de uma única empresa, a Olivedesportos, portuguesinha e muito nossa.