sexta-feira, setembro 05, 2003

A lion in winter

O Tozé Gonçalves (nenhum parentesco) é meu amigo quase de nascença. Para fazerem uma ideia, noto que comemorámos o 25 de Abril de 1974 com uma valente pelada num campo da vizinhança, como de resto já havíamos comemorado o 24 de Abril, o 23 e etc. Depois, a vida prosseguiu e, com interregnos mais ou menos prolongados, a amizade manteve-se. Mas as circunstâncias foram cravando certas diferenças. Eu derrapei um bocadinho para o género reflexivo; o Tozé, que é a cara chapada do Peter O’Toole em novo, dedicou-se à fornicação sucessiva de todas as mulheres lindíssimas que lhe apareciam à frente.
Desde há uns anos, o Tozé chegara próximo do entendimento que ele deve fazer do paraíso, juntando às inúmeras moçoilas uma carreira de sucesso como empresário do audiovisual (pois...), com telemóvel epiléptico, viagens mundo afora, «jeep» da Chrysler e caiaque para os fins-de-semana.
Segundo determinados padrões, era uma existência perfeita; segundo os mesmos padrões, acaba hoje. Hoje, o Tozé casa-se. Verdade que a noiva parece a Linda Evangelista, mas trata-se igualmente de uma noiva, de um compromisso, do fim de uma época. Eu, e a maioria dos amigos de infância, lá estaremos, de esposas a tiracolo. Para contemplar com amargura a abdicação do último resistente. E para constatar com vingativa alegria o respectivo ingresso no nebuloso trilho da mortalidade.