terça-feira, setembro 02, 2003

O Processo Reverencial Em Curso

Por muito que o assunto me desinteresse, não tenho conseguido escapar a alguns dos recentes debates sobre a «justiça», que descarregam diariamente dezenas de juizes e advogados nos canais televisivos. Além da Casa Pia, as acusações corporativas dão-me sono, mas fico fascinado com a pompa que envolve as espécies:
«Ó Mário Crespo, por quem é, trate-me por Senhor Doutor Juiz.»
«Com certeza, Senhor Doutor Juiz. Mas agora endosso a palavra ao Senhor Doutor...»
«Obrigado, Mário, e aproveito para esclarecer o caríssimo Senhor Doutor Juiz que as minhas referências a magistrados irresponsáveis e bandalhos não incluíam o Senhor Doutor Juiz, naturalmente.»
«Espero bem que não, Senhor Doutor, até por que o estimado Senhor Doutor terá consciência de que quando apelidei os excelentíssimos advogados de cáfila inconsistente fi-lo com propósitos construtivos e generalistas, nunca me referindo ao processo em curso.»
«Com certeza, Senhor Doutor Juiz, embora a colagem do Senhor Doutor Juiz ao absurdo parecer de sua eminência, o Senhor Doutor Pio de Vasconcelos, que eu venero com intensidade, seja uma perfeita palermice.»
Etc.
Eu percebo que os actos de Justiça exijam rituais, e em Londres, na solenidade dos Royal Courts, as perucas nem destoam. Aqui, porém, uma pessoa atenta nos fatos deste pessoal, no respectivo português, nos edifícios dos tribunais e nota que alguma coisa não bate certo. Respeitosa e definitivamente. Sobre esta discrepância, há até um texto muito bom no livro «Visitas ao Poder», da minha celebrada e estimadíssima colega, a Senhora Professora Doutora Maria Filomena Mónica.