terça-feira, outubro 28, 2003

Entrevista ao João Pereira Coutinho, que, se o sacana não me deixar ficar mal, vai abrir o site depois de amanhã.

Encontrei o João, sábado de tarde, na sua biblioteca particular. Isto, claro, depois de o procurar durante vinte minutos entre pilhas de Kristols, resmas de Tocquevilles e bolas de Berlins. Enfim, dei com ele atrás de dois exemplares anotados da «Ana Mais Atrevida» e um editorial emoldurado do Pedro Rolo Duarte.
Estava, como é habitual, informalmente vestido: casaco de tweed, gravata de malha e calça de bombazina, tudo em tons acastanhados como de resto aponta a tendência para a estação. E sapatilhas Nike. Os motivos do nosso encontro eram: um café; a devolução de um dvd que o João me sequestrou há meses; uma entrevista para o Homem a Dias, a propósito do site que ele se prepara para inaugurar. Na próxima quinta-feira, dia 30 de Outubro. Acho eu. Acha ele.
Após um longo café, em que aproveitámos para discorrer de modo alarve acerca das minorias oprimidas, incluindo os ‘gays’ e os leitores da sra. Maria Gabriela Llansol (perdoem a redundância), seguiu-se a profícua sessão de perguntas, que abaixo se reproduz (do dvd nem rastro).


João, porquê um site e não um blogue? Pior: porquê um site, aqui e agora?

Queres a resposta honesta ou a resposta politicamente correcta?

Obviamente, a politicamente correcta.

Porque gosto de escrever e sinto que a escrita é um exercício onde comunico algo de muito profundo com os meus leitores. Como dizia o José Luís Peixoto, aliás muito acertadamente, «morreste-me, nenhum olhar».

OK. Agora a honesta.

Para ver se ganho algum dinheiro com publicidade. Existem contactos. Ainda não existem contratos. E, claro, por pura vaidade pessoal. Ninguém escreve por outro motivo. Ninguém. Pachecos, Manéis, Marias. Ninguém. Como abrir o casaco no metro e mostrar as partes à Dona Rosa. Escrever é abrir o casaco. Uma coisa profundamente infantil e levemente paranóica. O resto é poesia.

Se não é indiscrição, costumas abrir o casaco no metro?

Costumava. Mas a partir do momento em que começaram a gostar e a atirar moedas, desisti.

Ao contrário, digamos, do Miguel Sousa Tavares, tu já tiveste um blogue...

Ele também tem. É o Pipi.

Ai o Pipi é o gajo? Bem me parecia que no «Equador» havia qualquer coisa implícita...

Havia. O título. No original, chamava-se «É cu, há dor», um tratado sobre a sodomia no Portugal dos inícios do século. Mas depois aligeiraram.

O costume. As editoras não respeitam a integridade criativa, o que é uma vergonha. A propósito, tens vergonha de Portugal?

Nenhuma. Seria incapaz de viver noutro país, com a provável excepção do Brasil, de Inglaterra e de Itália. E dos Estados Unidos. E, pensando bem, da Irlanda. Já vadiei o suficiente para saber que este país é impagável. O problema são os outros. São sempre os outros. Portugal não tem qualquer culpa de continuar a ser um local mal frequentado.

Dás-me nomes? Pago bem e à peça.

Metade da classe política, metade dos jornalistas, metade dos académicos, metade da blogosfera, etc., etc., etc. Nada de especial, o drama do costume. Somos um País de gente pequena e atrasada e temos as virtudes e os vícios das pessoas pequenas e atrasadas. Não é grave. Quarenta e oito anos não se apagam da noite para o dia.

Estamos optimistas. Queres dizer que há uma metade boa, grande, virtuosa e evoluída?

Não. Quero dizer que há uma metade que não envergonha. Uma metade que podias convidar para um café lá em casa sem temeres pelas pratas.

Como sabes, a minha casa já foi assaltada duas vezes e a maior despesa coube aos ladrões - em logística. Outra coisa: de que vai constar o teu site?

Uma por dia, é o lema. Um tema por dia, de segunda a sexta. E sem eufemismos, por favor.

Pequenas crónicas?

Textos pessoais, crónicas, crítica literária, pequenos insultos sem qualquer importância, pequenos elogios sem pés nem cabeça. A velha ambição de tentar organizar o mundo na minha cabeça.

Como o Carlos Pinto Coelho não diria melhor (diria, diria...), vais manter o género irreverente a que nos habituaste, espero?

Sim. Mas sem nunca cair nos excessos e na violência mental de um Carlos Pinto Coelho.

Que Deus o tenha. Uma palavrinha sobre a Coluna Infame?

Nenhuma palavrinha. O que escrevi na última posta da Coluna mantém-se. Até hoje. Os outros que se entretenham a mexer no cadáver.

Lá se vão as audiências. Mudando de assunto, não achas que, parafraseando ninguém*, o Daniel Oliveira foi a Yoko Ono da Coluna?

Muito honestamente, os meus problemas com o Daniel Oliveira terminaram quando eu terminei a minha colaboração com a Coluna Infame. Disse o que tinha a dizer, agradeci, saí do palco. Eu sei que as pessoas gostam de sangue, telenovela, etc., mas o que se passou é um capítulo perfeitamente encerrado. Escreveu-se muito, houve insultos, mentiras, puras fabricações mentais, nunca abri a boca porque não tenho qualquer interesse em remexer na merda. Tenho uma vida feliz, ou razoavelmente feliz, com pessoas que amo e estimo. A vida é breve e o resto é ruído.

Qual é o teu blogue preferido?

O Homem a Dias.

Não, a sério.

O Meu Pipi, claro.

Aí, já estou mais de acordo. Pensas abrir novas polémicas com a blogosfera?

Ninguém abre conscientemente polémicas, excepto o sr. José Saramago, o único escritor do mundo - e, provavelmente, da história da literatura ocidental - que, antes de escrever um romance, já veio para a rua em cuecas, a prometer escândalo. Extraordinário! Não procuro polémicas. Mas acho que está tudo demasiado sério e formal na blogosfera. Os blogues começaram como gesto radical de liberdade e agora parecem-me mais interessados em copiar os piores vícios da paróquia lusitana: a deferência, o respeitinho, aquela canídea vontade de farejar as retaguardas do vizinho, típica do meio cultural português. É pena.

Mas há excepções à seriedade, pá.

Eu sei. Mas o tom geral não agrada. Opinião pessoal. Como sempre, opinião pessoal.

Quais são os teus cronistas de imprensa preferidos, hoje?

Alberto Gonçalves, sextas-feiras, Correio da Manhã.

Não, a sério.

Acho que não se publica nada de remotamente comparável às crónicas do Paul Johnson na Spectator.

Certo, e o Mark Steyn?

Canadiano, rapaz.

E portugueses, ninguém que se veja?

Honestamente, não leio ninguém com regularidade. Passo os olhos.

Já te aconselhei a Helena Matos. E uma dúzia de blogues muito bem escritos. Alguns, pasme-se, de esquerda.

Eu sei. Conheço as crónicas da Helena Matos e existem blogues excelentes. Estou a falar a sério. Gosto do Bomba Inteligente - uma espécie de Petronella Wyatt à nossa medida, muito bom, o tom certo, aquela mistura de intimidade e irrisão quotidiana. Gosto do Contra a Corrente, um exemplo de sanidade mental. O Flor de Obsessão é também excelente: o Lomba conseguiu o tom certo - a angústia interior do Nelson Rodrigues, o Nelson das crónicas, não das peças teatrais. E na esquerda gosto muito da Praia, do Ivan Nunes. Brilhantemente pensado e escrito. Mas existem outros.

Achas razoável que te considerem um gajo de direita?

Quero lá saber. Se o grande conflito político é, até hoje, o velho conflito entre o Real e o Ideal, entre o ser e o dever ser - o velho Hume's fork -, então estou do lado do Real. Não acredito em nenhum ideal redentor, salvífico e definitivo e acho que a política não é uma actividade criativa, ao contrário do que dizem os meninos do Bloco. É uma actividade activa, ou melhor, reactiva. Como um sapateiro. Só deve agir quando as solas estão a precisar de conserto. Se isto é ser de direita, sou de direita. Se o desejo de açaimar a ferocidade intrínseca do poder é ser de direita, então sou de direita. Se não desejar impor nenhuma estrada salvifica ao meu semelhante é ser de direita, tudo bem, põe aí que eu sou direita. Who cares?

Nobody, I think. E quanto a religião, continuas católico, apostólico e, por razões que não vêm ao caso, napolitano?

Sou um católico reticente. E, como todos os napolitanos devotos, um apostólico excessivo. Nem me fales de Nápoles. Que mulheres, que comida, que mar, que gente.

Acredito. E pronto, rapaz. É verdade: o jantar de segunda fica adiado para terça, pode ser?

Outra vez? É sempre a mesma merda.

[* 'ninguém', o tanas: a comparação é do Francisco Mendes da Silva, publicada no Quinto dos Impérios, em 7 de Junho. Peço desculpa pela apropriação indevida mas inconsciente.]