terça-feira, outubro 21, 2003

Interlúdio sentimental

Ontem, como sucede a tempo e data incertos, foi dia de jantar com os meus amigos de infância. Dantes, éramos cinco fedelhos. Agora somos: um técnico informático, um produtor discográfico, o dono de uma empresa de audiovisual, um industrial de conservas e este vosso criado. Politicamente, um é PSD, outro é vagamente socialista, dois nunca tiveram cartão de eleitor e eu - eu não estou seguro. As nossas mulheres não se conhecem ou conhecem-se mal. Apesar de uma ou outra alegada simpatia clubística, jamais falámos de futebol.
Entre nós, pois, há poucos laços daqueles que parecem estimular o convívio das pessoas adultas, como a profissão, a família, a ideologia ou a bola. O que nos aproxima é esse vulto esdrúxulo a que se chama amizade, que é quase tudo e não se define e não permite que se contem as horas que passamos em conjunto.
Esta noite, cheguei a casa pelas quatro. Eles também. De manhã, digamos assim, arrastei-me para o trabalho com a ligeira ressaca da praxe e imenso sono. Eles, aposto, também. E essa irresponsabilidade partilhada, que dura vai para trinta anos e assenta em coisa nenhuma que se veja ou venda, é um dos maiores orgulhos que eu tenho na vida. E eles, acredito, também.