segunda-feira, outubro 20, 2003

Marketing & Maomé

Não quero beliscar a credibilidade da Al-Jazira, mas cada nova «aparição» do sr. Bin Laden levanta-me sempre algumas dívidas. Principalmente sobre o facto do homem só «aparecer» em cassetes audio. Um costume, aliás, partilhado com a elite do terrorismo internacional em fuga, tipo Saddam e o santificado Omar (visto pela última vez a abandonar Cabul numa Vespa, vai para dois anos).
Pergunto: a rapaziada que abriga estes párias desconhece que as câmaras de vídeo já são comercializadas desde 1975? É que, dado o objectivo das sazonais «mensagens» consistir em demonstrar ao mundo a sobrevivência e o vigor do sr. Laden e afins, um filmezito ajudaria muito mais. Uma voz qualquer Fernando Pereira imita, sobretudo se a mesma tem a qualidade sonora do Oscar Wilde a declamar excertos do «De Profundis». Agora um homemovie, daqueles jeitosos, com churrasco, crianças em corrida e o sr. Laden a apalpar, galhofeiro, doze ou treze das respectivas esposas, faria maravilhas pela causa do Islão.
Actualizem-se, por amor de Alá, e ponham os olhos no compincha Arafat. Mesmo ele, que pretende exibir as pérfidas condições a que os malvados israelitas o condenaram, surge diariamente em filmagens perfeitas, ao vivo e a cores. É como na «pop»: os discos são uma formalidade; os «clips» são essenciais. Em vez de se armar em CNN, a Al-Jazira devia cumprir a sua verdadeira vocação e colar-se à MTV, divulgando com outro primor os artistas locais. Caso contrário, os srs. Laden, Saddam & etc. arriscam-se a comprometer seriamente as promissoras carreiras.