sexta-feira, outubro 24, 2003

Noite branca

Esta noite, enquanto a Comissão Política do PS se reunia, a Sic Notícias passou um comunicado do dr. Ferro. O dito, por razões que não alcanço, foi declamado na doce voz do dr. Santos Silva - o que, de qualquer modo, lhe conferiu um dramatismo muito peculiar. Tão peculiar, que eu adormeci ao fim de dois minutos. Quando acordei, alta madrugada, a televisão continuava ligada e a Comissão continuava reunida, prolongando um suspense que roubou o sono a sensivelmente 0,000032% dos portugueses, valor que equivalia aos participantes no importantíssimo encontro, mais o porteiro da sede e sete choferes. Na Sic Notícias, aquele rapaz que tirou umas fotografias ao lado da Marisa Cruz permanecia igualmente alerta, pronto a interromper a pacatez da noite lusitana com a notícia de uma demissão em bloco, uma dissidência das antigas, uma sessão de bordoada que fosse. Folheei, à laia de rotina, uma magnum opus do arquitecto Saraiva - não me recordo se o romance ou as «Confissões» - e voltei a adormecer.
Hoje de manhã, os jornais não traziam novidades, o Fórum da TSF vertia fúrias sobre um assunto que não identifiquei, não usufruí ainda do acesso a um televisor e a internet do escritório só me dá desgostos. Quero dizer: alguém sabe o que aconteceu? Há novidades da Comissão, ou a direcção do PS mantém-se enclausurada? Não será melhor arrombar a porta? Se acossados em excesso, certos grupos optam pelo suicídio colectivo, como a tragédia do Templo do Sol, por exemplo, não nos devia deixar esquecer.
O mais certo, porém, é que algum socialista tenha dado um murro na mesa e, à semelhança do que sucedeu no Parlamento, a mesa partiu-se. Se calhar, o PS aguarda apenas um carpinteiro. O que, nos dias que correm, é mais difícil de aparecer que o dr. Vitorino.