segunda-feira, outubro 13, 2003

O triunfo da vontade

Para minha sorte e descanso, acho que todos os meus amigos são fumadores - activos ou não. Talvez por isso, reconheço dificuldades relacionais com sujeitos que guardam uma distância de 300 metros ao cigarro mais próximo. São uma gente estranha, que acredita firmemente na íntima eternidade e que ocupa os tempos livres a escrever insultos ao Francisco José Viegas. Sempre que posso, evito-os. Sábado, não pude evitá-los. Ao jantar, foi-me servido um anti-tabagista encartado, que ainda por cima acumulava funções. Além de temperar o repasto com a malcriação habitual sobre o fumo, o angélico rapaz dizia-se igualmente «fanático do desporto» (entre a rapaziada saudável, o fanatismo é um modo de vida) e «fanático da reciclagem» (hélas).
Estas maravilhas da fé iam sendo disparadas contra um alvo específico, justamente a pessoa que convidara o beato e que, com elevado merecimento, sofria o suplício em silêncio. Infelizmente, a partir de certa altura, Sua Santidade aumentou o volume e eu, tendo terminado a moamba de galinha, acendido o quinto cigarro do serão e inaugurado a segunda garrafa de Cartuxa, não resisti a emitir umas opiniões avulsas - evidentemente retóricas e inúteis. À saída do restaurante, percebi quão inúteis, enquanto Sua Santidade se dirigia para um Volvo qualquer coisa oitenta (em termos de poluição, o equivalente a uns 5700 fumadores) e os conhecidos dele se despediam: «- Até à próxima, Adolfo». Adolfo?