quarta-feira, outubro 08, 2003

Sic radical

Acabou agora, na Sic Notícias, um arremedo de debate sobre a demissão de Martins da Cruz. De um lado, Pires de Lima (PP); do outro, António Filipe (PCP) e o meu antigo colega João Miguel Teixeira Lopes (BE). Meia hora de aborrecimento dispensável, não fosse uma descoberta para mim inesperada: a longo prazo, a existência do BE não representa um perigo para o Partido Comunista, mas um factor de apoio e integração.
Explico: comparado, assim de chofre, com as alucinações sucessivas que o João Miguel reproduz, António Filipe passa por um sujeito razoável, membro de uma força política algo moderada, quase sensata e praticamente democrática. Enquanto um recorria à habitual catilinária de Boaventura S.S. contra as sociedades abertas, o outro - imagine-se - exibia sinais de reconhecimento do Estado de direito; enquanto um disparava sentenças sumárias e esdrúxulas, que condenam a administração pública em peso, o outro - pasme-se - cingia-se, em boa medida, aos factos.
Foram necessárias três décadas sobre o 25 de Abril para que, ao menos durante uns instantes, eu escutasse um alto responsável comunista com, digamos, naturalidade. Agradeço ao João Miguel, ao dr. Louçã e ao Bloco em geral por, inadvertidamente, me abrirem uma janela que eu julgara para sempre obstruída. Amanhã vou telefonar à minha cunhada.