sexta-feira, outubro 10, 2003

Uma redundância ao almoço

Quase todos os dias, na esplanada onde almoço, vejo passar um sujeito de meia-idade que fala sozinho. À primeira vista, enganado pelo auricular que leva no ouvido, julguei que conversava ao telemóvel. Errado: a observação regular e sistemática do sujeito e respectivos monólogos permitiram-me concluir que, do outro lado do fio, não há ninguém. É só ele, que em voz alta, olhos baixos e com uma mão a agitar-se atrás das costas, proclama invariavelmente coisas do tipo:

«- Eu não quero ser atendido por fascistas nem por filhos de fascistas.»

Ou:

«- Eu não tenho medo, eu não mudo.»

E a sentença preferida:

«- Eu sou comunista!»

Hoje, vi novamente o comunista que não muda e fala sozinho, e pensei na magnífica metáfora que, quase todos os dias, atravessa a hora da minha sobremesa.