terça-feira, novembro 11, 2003

Ao cuidado da ciência

Há uma forma peculiar de demência, ignoro se exclusivamente nacional, que, talvez pelo seu carácter recente, não tem merecido a devida atenção da comunidade psiquiátrica - fictícia ou verdadeira.
A sintomatologia é curiosa, revelando-se apenas na presença de câmaras televisivas. Consiste, por parte dos pacientes, na busca obsessiva das respectivas objectivas - não para intervir activamente na filmagem (esse tipo de loucura é velho e muito estudado) - mas apenas para se colocarem atrás do sujeito filmado.
Esta ‘fixação no segundo plano’, na definição feliz do dr. Rui Frade, ele próprio um investigador-participante da outra, e mais comum, variante, tem acometido com certa gravidade um número crescente de cidadãos. É vê-los acotovelarem-se, de telemóvel em punho, na retaguarda do subchefe da GNR sempre que uma inundação ou um desastre rodoviário reclama as equipas da Sic ou da Tvi. Na generalidade são, felizmente, casos ligeiros, que registam imediatas melhoras quando baixa a água ou se removem os destroços do carro.
Há, contudo, quem padeça de estádios muitíssimo avançados da maleita. Lembro-me, de repente, de dois exemplos públicos. Um, que o vulgo carinhosamente apelidou de ‘Emplastro’ ou ‘Animal’, adquiriu vasta notoriedade quando foi usado por Herman José para subir audiências. Ou quando surgiu ao longo de 1458 emissões em directo nas imediações de campos de futebol.
O outro caso clínico tristemente famoso chama-se José Miranda, que o bom povo alcunhou de ‘Narciso’. Ainda no último sábado era vê-lo nos bastidores da reunião socialista, saltitando atrás de cada entrevistado, sorrisinho maroto e desconexo. Ora dava um passito à frente, ora chegava-se dois para o lado, de modo a nunca sair do campo de visão dos telespectadores. Nos intervalos do árduo exercício, treinado há longos anos, compunha a gravata e treinava o perfil, fitando de esguelha o ponto de mira.
Os telespectadores, na sua boçalidade, divertem-se com coisas assim. Vergonha deles: deviam antes financiar a cura, criar associações de apoio, colocar na lapela um laço simbólico da desdita. A solidariedade não pode nem deve ser palavra vã.