quarta-feira, novembro 19, 2003

C.V.

Anda um tipo a tentar fazer boa figura, escrever uma crónica limpinha, manter um blogue decente, quando de súbito vê-se desmascarado. Talvez a soldo de uma sinistra cabala, o Luciano e o Statler revelaram em simultâneo que eu sou sociólogo, facto cujo oposto sou incapaz de demonstrar. Isto, no caso do Statler, veio a propósito de uma pergunta do Pedro Lomba, sobre se as pessoas frequentam sociologia por serem de esquerda ou ficam de esquerda após frequentar sociologia.
Ora bem, o Pedro Lomba, que eu não conheço pessoalmente, tem sido simpaticíssimo para comigo. Desta vez, porém, ofendeu-me onde mais dói, já que foi justamente a sociologia a deixar-me de direita.
Explico. Quando entrei no curso de sociologia da Universidade do Porto, ainda um adolescente crepuscular, era total e visceralmente apolítico. Não lia jornais, não tinha cartão de eleitor, mal sabia que o prof. Cavaco mandava nisto. A minha passagem tangencial pelo tema resumia-se às digressões do dr. Sá Carneiro, que os mais pais, na década de setenta, seguiam de Norte a Sul, em comícios, almoços e animados serões partidários.
Esquecida essa trágica meninice, no final dos anos oitenta os meus interesses passavam, com larga exclusividade, pela alta poesia e pela baixa vadiagem. Pelo menos no que toca à poesia, as correntes sociológicas agrilhoaram os meus planos. Tratou-se de um processo gradual. Primeiro, havia os professores (esmagadoramente de esquerda); os colegas (maioritariamente de esquerda e quase todos semelhantes ao Tozé Seguro); e as colegas (prioritariamente de esquerda e cujo valor facial era pouco melhor).
Depois havia os conteúdos. Weber era bom, Durkheim engolia-se, Marx tinha estrutura (nos dois sentidos). Mas quando comecei a afocinhar nos Poulantzas, Touraines, Wallersteins e Bourdieus desta vida, percebi que, em nome da higiene mental, tinha de largar as emulações da Emily Dickinson e dedicar-me a descobrir alternativas àquela anedótica miséria.
Um dia, nos sombrios corredores, mão amiga estendeu-me uma tradução parcial do ‘Democracia na América’, que logo em seguida me levou para trás (Burke, Maquiavel) e para a frente (o Kissinger da ‘Diplomacia’, o Allan Bloom da ‘Cultura Inculta’ e a Himmelfarb em geral). Semanas decorridas, percebi que um outro mundo era possível. Quatro anos sacrificiais mais tarde, concluí o curso sem quaisquer ambições poéticas, mas com firme (?) consciência política (?) e o pé a uma distância segura do chinelo esquerdo. O resto não é história.
Agora, meu caro Pedro, exijo públicas desculpas. E envio um grande abraço.