terça-feira, novembro 04, 2003

Finados

O cemitério de Vimioso é um quadrado pequenino, à saída da vila, pelo lado sul. Do seu interior, se usarmos as pontas do pés ou medirmos um metro e oitenta e tal, vemos a sucessão de outeiros e elevações ligeiras que compõem a paisagem, dali até à Serra da Nogueira, Montesinho ou Sanabria. Sábado passado, acompanhei a minha prima Fátima, com quem vivi parte da adolescência e que é como se fosse minha irmã e com quem levei os últimos anos sem falar e sem motivo, na visita anual àquele despojado sítio. A Fátima tem lá um filho, nado-morto. E os avós dela, meus tios. E o tio dela, meu avô. E o nosso bisavô. O meu pai está enterrado, ao lado da mãe dele e dos pais desta, numa aldeia próxima, que se avista sem esforço por cima do muro, entre os ciprestes. Na tarde de sábado, começava-se a notar o frio do Nordeste, ainda moderado, sete ou oito graus, dizia o termómetro do carro. Havia nuvens altas e escuras. Ao todo, uma dúzia de pessoas executavam os rituais próprios da data, sem alarido. De repente, ocorreu-me: sou ateu, mas se estiver enganado, este é o lugar onde eu vou passar muito tempo, mais tempo do que consigo imaginar. E, após um estremecimento breve, senti um conforto igualmente sem tamanho. Em seguida desci com a Fátima ao café da praça, conversando ninharias.