sexta-feira, novembro 14, 2003

Sala de espera

Acho que pela primeira vez na minha vida adulta, liguei a televisão de manhã cedo. Depois, deixei-me afundar no sofá da sala. Nos canais portugueses, a obsessão é com os títulos da imprensa. De dez em dez minutos, os apresentadores interrompem os noticiários para exibir as capas dos jornais, ‘destacando’ as mesmas manchetes até à náusea. O exercício não tem propósito aparente, a não ser talvez fomentar o ódio dos espectadores à informação escrita - e, de caminho, à televisiva. Ou então é um serviço prestado às pessoas que não podem sair de casa, logo impedidas de se plantarem em volta dos quiosques, a fitar com deslumbre a frontaria dos diários desportivos (os cavalheiros) ou das revistas ‘sociais’ (as senhoras). Eu faço o mesmo com o «Crime», mas adiante. A única lição que aprendi hoje, graças a um rapaz da NTV que empunhava um diário de economia, foi o facto de a Alemanha estar ‘quase a sair da recepção’. Eu não fazia sequer ideia de que aquele país estava à espera de ser recebido por alguém, e o rapaz da NTV também não entrou em pormenores. Confesso porém certo receio. Como é que se está quase a sair da recepção? Com um pé dentro e outro fora? E quando a Alemanha finalmente sair, é porque foi atendida, ou apenas desistiu de secar? Quem eventualmente recepcionará o gigante germânico? E com que fim? A sala é agradável? Convinha não deixar a coisa pela rama: a impaciência alemã não costuma originar alegrias. E, de resto, o jornalismo existe para nos informar.