terça-feira, dezembro 02, 2003

Luzes da ribalta

É verdade, morreu Jesus Correia. Julgo que o meu avô, que na década de quarenta passou pela 1ª divisão, jogou contra ele um par de vezes. Certo é que se lhe referia com frequência e enorme respeito. Eu era fedelho e ouvia em sentido as proezas do homem que conciliava futebol e hóquei e sei lá o que mais e era óptimo em tudo.
Hoje, num jogo qualquer, também havia moços em sentido, no ‘minuto de silêncio’ que duram as exéquias da bola. A maioria deles nunca ouvira falar de Jesus Correia. Três ou quatro suspeitariam que se tratava de um velhote do Sporting, que ‘deu uns toques’ em época recuada e vaga. Estou a ser optimista: no máximo, disseram-lhes para se calarem e permanecerem imóveis enquanto o árbitro contava uma volta do ponteiro. Só isso. A memória anda pelas ruas da amargura, e, na vida deles, o silêncio não faz muito sentido. O barulho, sim. Os jornais, as televisões e o garrido folclore que os rodeia assemelham-se ao bocado de imortalidade a que pensam ter direito.
Um dia, talvez, algum privilegiado entre os moços merecerá o tratamento do minuto e do silêncio. Nessa altura, outros se imobilizarão no relvado, na partilha regulamentar dessa saudade burocrática e triste. Mas, hoje, nenhum daqueles rapazes se imagina no papel. Eles são manchete quase diária, e a «A Bola» não faz manchetes de defuntos.