sexta-feira, dezembro 05, 2003

Stardust

Ontem, pensei em escrever sobre Sá Carneiro. Desisti por falta de opinião relevante. Do período revolucionário (e pós), conheci, se assim se pode dizer, duas figuras. Otelo e Sá Carneiro. Otelo era amigo dos meus pais; Sá Carneiro, vago conhecido. Até 1976, julgo, Otelo era lá de casa, e nós de casa dele. Com Sá Carneiro, os encontros davam-se em ocasiões mais ou menos festivas, mais ou menos formais.
De Otelo, guardo inúmeras fotografias e alguns postais (um deles alusivo ao meu nascimento). De Sá Carneiro, a lembrança de uma refeição na mesma mesa, em casa de familiares meus, talvez em 1979. Os meus pais visitaram Otelo na prisão, mas votavam sempre em Sá Carneiro.
Há uns quatro anos, almocei em Matosinhos com Otelo e o meu pai, além de meia dúzia de perigosos esquerdistas. Há vinte e três anos, o Raul Durão surgiu na RTP para anunciar ao país a queda de um avião. O meu pai ficou calado; a minha mãe chorou. No dia seguinte, ao dirigir-me para o ciclo preparatório, reparei que os jornais que uma velhota vendia na esquina traziam um título de página inteira. As ruas estavam quase vazias. Não houve aulas. Para ninguém. O essencial das minhas memórias é partilhado com toda a gente.