quinta-feira, dezembro 11, 2003

Urbanidade

Livros há muitos. Mas raras são as obras que, mercê de caleidoscópica inovação estilística, abrem portas, escancaram janelas, desvirginam persianas, preparando o caminho para uma literatura que se deseja perpetuamente nova e que, diria EPC, retém no seu âmago os sinais que questionam essa originalidade essencial, assim como se a morte (ou a respectiva rejeição) se inscrevesse, cândida, nos gestos quotidianos, e erguesse cada instante à memória de um insuspeito (mas nem por isso menos trágico) epílogo. Livros de merda, portanto.
No último - wishful thinking, perdão -, no mais recente opúsculo de Urbano Tavares Rodrigues, cujo nome não me ocorre, há uma personagem, cujo nome não me ocorre, que é descrita da seguinte maneira:

«Fulana de Tal, apesar do seu revolucionarismo feminista, gostava do sexo às escuras.»

Parem, respirem fundo e deixem-se fulminar outra vez:

«Fulana de Tal, apesar do seu revolucionarismo feminista, gostava do sexo às escuras.»

A criação artística, quando inventiva e poderosa, é capaz de desencadear arrebatamentos irracionais. A miséria acima, por seu lado, desencadeia imediata galhofa, e é altamente desaconselhável a leitura de UTR enquanto se toma café num local público, sob pena de disseminar a beberagem pelas cinco mesas mais próximas.
Para além da alegria que proporciona, a principal vantagem de uma frase tão grotesca, analfabeta e vitalmente desprovida de qualquer sentido está nas possibilidades que oferece. Daqui para a frente, somos livres de escrever ficção sem as grilhetas da forma ou do conteúdo. Ou da inteligência, de resto. Como pretendera Feyerband para as ciências sociais, anything goes, tudo conta - e, afinal, era exactamente isto que tantos de nós esperávamos.
Eu próprio, por exemplo, comecei ontem o meu aguardado primeiro romance, cujo início hesito em definir, tamanha é a escolha:

«Mariana, apesar do seu masoquismo seminarista, apreciava a sopa morna.»

«Celestina, não obstante a sua dislexia emocional, delirava com uma bisca lambida nas tardes de Santarém.»

«Maria de Lurdes, mesmo desempregada e alta, era fervorosa coleccionadora de raminhos de cidreira e cordel.»

«Octávia, do âmago do seu estrabismo neoliberal, não passava ao lado de uma dança de salão.»

«Francisca, ainda que colonialista e portadora de Lupus, preferia o bolo-rei sem fava.»

Daqui ao Nobel é um saltinho. Obrigado, Urbano.