quinta-feira, janeiro 22, 2004

O Homem a Dias também é cultura

Do que eu gosto, assim gostar arrebatadamente, é das crónicas de Pedro Strecht no «Público». Às vezes, vêm em prosa, e aí uma pessoa contorna-as com agilidade. Mas quando são Poesia, com justíssimo ‘P’ maiúsculo, até me arrepio. E não falha, corto com parcimonioso cuidado a página em questão, guardo-a no bolso e, à primeira oportunidade - jantar de amigos ou sarau cultural -, irrompo pela conversa adentro com uma mão na folha e outra ao vento, proclamando, por exemplo:

«Vocês tiram-me o pão para a boca
logo a mim, que mais não tenho
que esse alimento amargo, feito dor
pelo corpo do meu filho, desvirtuado
que engole em seco a mágoa, toda a tristeza
sem qualquer lamento, a vergonha esquecida
‘tome pai, aqui o tem’
que a noite, agora, é já silêncio.»

Lindo. Infelizmente, ainda preciso de cábula, o que retira um poucochinho do dramatismo à cena. O único poema que recito de cor é aquele do Décio Pignatari que começa assim:

«ra terra ter
rat erra ter
rate rra ter
rater ra ter
raterr a ter
raterra terr»