quinta-feira, janeiro 29, 2004

Ronda por Sampa

O Francisco escreveu sobre São Paulo. Nunca estive em cidade tão agreste; não há cidade que me volte tantas vezes à memória. Não sei se as piadas que os cariocas contam sobre Sampa são justificadas. Por vezes, são excelentes, como algumas que o Francisco lembrou. Ou como a de Nelson Rodrigues (e aqui vai a citação nº 7635 de N.R. na blogosfera portuguesa): «Não há maior solidão que a companhia de um paulista.»
Outras vezes, são absurdas, como quando Vinícius chamou a São Paulo «o túmulo do samba». Verdade que o Rio teve Noel Rosa, Cartola e Tom Jobim/João Gilberto, para citar apenas os génios e aqueles que melhor o cantaram. Mas raríssimas vezes, no Brasil e no mundo, uma cidade foi celebrada com a justeza e a dedicação que São Paulo mereceu de dois compositores, ambos bissextos e vergonhosamente subestimados: Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini.
Adoniran, autor de «Trem das Onze», que em versão adulterada é repertório básico de qualquer banda de feira (‘Não posso ficar, nem mais um minuto com você...’), escreveu igualmente «Tiro ao Álvaro», «Saudosa Maloca», «Samba do Arnesto» e «Vide Verso Meu Endereço». Frescos resignados e doídos da vida dos bairros e das classes suburbanas, numa lista séria das cinquenta melhores canções brasileiras de sempre, qualquer uma delas teria lugar de caras.
Vanzolini ainda é vivo, não canta (salvo excepções), não toca nenhum instrumento, é doutorado em zoologia por Harvard e uma das maiores autoridades mundiais em répteis. Até hoje, compôs 65 músicas. Duas, pelo menos, são obras-primas: «Praça Clóvis» (de que a interpretação definitiva, talvez difícil de encontrar, é de Chico Buarque) e «Ronda». «Ronda», devaneio de uma mulher ciumenta pelas noites paulistas até ao crime final (‘E nesse dia, então, vai dar na primeira edição: Cena de sangue num bar da Avenida São João’), é uma aula completa de precisão narrativa. É também um dos escassos momentos em que a música popular atinge aquele patamar de assombramento, ao qual, por conveniência, chamamos ‘arte’. Caetano Veloso roubou 14 compassos de «Ronda», além do espírito, para fazer «Sampa». Vanzolini, que é de uma discrição extrema mas não é parvo, insulta-o metodicamente nas poucas entrevistas que concede.
Nota pessoal: vai para quatro anos, troquei alguma correspondência com Vanzolini, bicho do mato, na expectativa de um encontro a que ele, para meu espanto, acedeu com a maior simpatia. Depois, por motivos com certeza irrelevantes, cancelei o encontro. Há frustrações que não nos largam vida afora.