sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Ser velhinho neste mundo

Estourou a polémica no lar de idosos Flor de Abril. Justamente quando Mário Soares (97 anos), utente externo, ganhava a simpatia das velhinhas da hora do lanche, que o viam já como um exemplo de vigor antifascista, o veterano Vasco Gonçalves (106 anos), ocupante do quarto 11-C, irrompeu pela cantina lembrando em voz alta as inclinações contra-revolucionárias do sr. Mário.
Chocada pelas insinuações, a dona Deolinda (86 anos), frequentadora do Centro de Dia e antiga activista do SAAL, entrou em estado cataléptico, levando a que, desde há algumas horas, uma equipa de torneiros mecânicos tente separar-lhe a dentadura de um croissant de mortadela.
Com o rosto e a voz devidamente protegidos, a assistente social T., responsável pelo Flor de Abril, disse a uma equipa de reportagem da TVI qualquer coisa indecifrável. O ministro da Saúde declinou comentar o caso, mas fontes mal identificadas garantiram ao Expresso que as deficiências registadas em lares de inspiração progressista vêm sendo acompanhadas com preocupação pela tutela.
Recordemos que, ainda há poucas semanas, a instituição O Repouso do Camarada, na Marinha Grande, foi cenário de três mortes repentinas, ocorridas durante uma sessão de leitura contínua da poesia de Ary dos Santos, por ocasião dos vinte anos do desaparecimento desse notável vulto, antigo beneficiário do Apoio Domiciliário Integrado d'O Repouso. Na altura, atribuiu-se a tragédia à comoção, mas colegas dos falecidos fizeram constar que ouviram teses bem mais preocupantes serem sussurradas. Porém, sendo surdos, não as perceberam.