segunda-feira, março 01, 2004

Perdido na tradução

Como sempre, convenço-me a ver os óscares. Como sempre, adormeço a meio, aí por alturas da Melhor Fotografia ou palermice do género. Como sempre, sou informado de manhã acerca dos vencedores. Como sempre, fico espantado com a boçalidade das decisões.
Acho que, durante a minha existência, nunca o Melhor Filme designou um filme realmente bom. A ocasião em que se terá andado mais perto foi com «Imperdoável», mesmo assim obra ‘menor’ de Clint Eastwood. Nos outros óscares relevantes, a paisagem pouco melhora: Oliver Stone venceu dois bonecos de Melhor Realizador, Jack Nicholson é recordista e até Al Pacino, ceguinho e com Ferrari, mereceu honras da Academia ou lá o que é.
De facto, o lixo parece ser a regra, e este ano a regra instituiu-se de vez: um video-game arrecada uma resma de prémios; um vídeo-clip (brasileiro) teve quatro nomeações; Sean Penn é o Melhor Actor e «Lost in Translation» ficou, como se diz na bola, em branco. Escusado lembrar que «American Splendor» nem foi para aqui chamado e que «Pieces of April» recebeu uma nomeação fortuita.
Há, então, motivos para malhar no cinema americano? Nem tanto. Entre as principais categorias de 2003, os únicos produtos aproveitáveis são dos poucos realizados por cidadãos dos EUA: Sofia Coppola, Eastwood e Gary Ross. A desgraça vem de longe, da Nova Zelândia, da Inglaterra, da Austrália e nem sei qual a origem daquela miséria ‘sobre’ Vermeer.
Nos bons tempos, os realizadores europeus (sobretudo vindos do Leste) chegavam aos EUA e desatavam a verter maravilhas; agora, maçam-nos a paciência com o que eles julgam serem épicos modernos ou com a famigerada ‘sensibilidade alternativa’ (cujas sobras particularmente repugnantes enchem os festivais de Cannes e Berlim para gáudio de analfabetos). E a América, por misterioso complexo de culpa ou por contágio, recompensa-os com pompa e estatuetas.
Ao ‘abrir-se’ para o mundo, o cinema americano (passe as excepções e a redundância) perde em vigor e nitidez o que alcança em infantilidade e ‘introspecção’ oca. Principalmente, tende a fechar-se para o talento, pelo menos no que à consagração dos óscares diz respeito. Hollywood, que dantes era a Meca das fitas, ameaça hoje tornar-se na terra média, ou algo pior. Para desopilar, e parafraseando a dona Anabela Mota Ribeiro, hoje vou rever qualquer coisinha com o Cary Grant. Ou com o Jim Carrey. Nenhum deles - incluindo a dona Anabela - ganhou um óscar.