quarta-feira, abril 21, 2004

Subsídios para um estudo coordenado por Carla Hilário de Almeida Quevedo

Há vocábulos cujo uso desajustado os torna susceptíveis de erradicação sumária, quando, na sua origem, possuíam uma função pertinente e deveras útil.
Um caso típico é Nomeadamente, hoje aplicado para exemplificar alguns elementos de um conjunto geral. Errado, como a seguir veremos.
Ezequiel Nomeada foi um tanoeiro e um místico que viveu em Salamanca, na segunda metade do século XIV. Aos 26 anos, abandonou a primeira profissão para abraçar a tempo inteiro o misticismo, que até então exercia apenas em horário pós-laboral. Certo dia, enquanto lia as entranhas de um faisão estufado, foi possuído por um arrebatamento súbito e descobriu que não só a Terra gravitava na órbita do sol como ambos giravam em torno do seu cunhado, o comerciante e também místico Pepe "Pepito" Vargas. Julgado por heresia e vadiagem, Nomeada foi ouvido por um juiz de primeira instância, perante o qual negou tudo. Porém, não convenceu o juiz, que proclamou, antes de o condenar a 32 anos de trabalho voluntário, "Nomeada miente!" Testemunhos coevos garantem que, entredentes, o pobre Nomeada terá respondido "E no entanto, o gajo tem razão."
Os séculos distorceram a primeira expressão (de início muito popular sempre que se desmascarava um mentiroso) e trouxeram-na, adulterada e insuportável, até à boca dos nossos políticos, jornalistas e dirigentes desportivos. Já a segunda expressão permaneceu intacta, à semelhança de Pepe "Pepito" Vargas, entretanto fugido para a Bretanha, onde viveria feliz durante mês e meio até cair vítima da peste negra.

Por hoje é tudo.