sexta-feira, abril 23, 2004

Suplemento cultural: análise de conteúdo

O «Público», passe a redundância, publicou hoje um poema de Manuel Alegre. Manuel Alegre ameaça tornar-se o bardo das efemérides. Há dois anos, a propósito do Mundial de futebol, levámos com um poema para Figo. Agora, a pretexto do 25 de Abril, há poema ao "r". Esperemos que, desta vez, seja melhor prenúncio.

E passemos ao comentário:

ABRIL COM "R"

[Gramaticalmente, é correcto]

Trinta anos depois querem tirar o r

[Parece-me que o "r" a tirar pertencia à palavra "Revolução", mas aceita-se enquanto metáfora (Revolução/Abril)]

se puderem vai a cedilha e o til

[Lá está: num efeito de elipse, passou-se de Abril à Revolução. Sucede que Revolução sem "r", cedilha e til, fica "evolucao", o que não faz grande sentido]

trinta anos depois alguém que berre

[A figura - e a prática - do berro é recorrente na vida e obra do autor]

r de revolução r de Abril

[Eis a metáfora resolvida - ver acima]

r até de porra r vezes dois

[Verso tipicamente Aryano. No entanto, é escusado enervarmo-nos]

r de renascer trinta anos depois

[O poeta confessa ter passado trinta anos acabrunhado]

Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia

[Caso contrário, teríamos "iberdade", de significado oculto. A quem poderia servir esta afronta?]

democracia fica sem o d.

["Emocracia"? Idem]

Alguém que faça um f para a festa

[Não é preciso, já está feito]

alguém que venha perguntar porquê

[Porquê o quê?]

e traga um grande p de poesia.

[É forçoso ser muito grande? E para que serve?]

Trinta anos depois a vida é tua

[O poema, até aqui sem destinatário, ganha de súbito um interlocutor, infelizmente não identificado]

agarra as letras todas e com elas

[...faz uma sopa?]

escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)

[O dr. Alegre está nitidamente à margem das tendências sexuais dos últimos três mil anos, pelo menos. O exílio tem destes contratempos]

escreve a palavra amor em cada rua

[E depois quem limpa?]

e então verás de novo as caravelas

[Para que se veja assim caravelas no meio das ruas, dá-me a impressão que é preciso fazer mais qualquer coisa além de rabiscar paredes]

a passar por aqui: trinta anos depois

[O Salgueiro Maia desceu de Santarém numa caravela?]