quarta-feira, julho 12, 2006

Fungos



Foi há uns vinte anos que descobri The Madcap Laughs. Até ao fim da adolescência, não larguei o disco. Não sei porquê. Syd Barrett não sabia tocar nem cantar. Sobretudo não sabia compor, e as letras, celebradas por analfabetos, justificavam a celebração de analfabetos. Mesmo pelos baixos padrões da “pop” e pelos baixíssimos padrões da “pop” britânica, aquilo era de uma indigência atroz. Eu gostava. Eu devia ser estúpido. Syd Barrett era clinicamente estúpido, à custa da exagerada ingestão de fungos, e mesmo assim Golden hair, sobre texto de James Joyce, passava, até quando as harmonias acertavam, por uma bonita canção. E She took a long, cold look at me ou Terrapin, se bem me lembro, ouviam-se. Não voltei a ouvir. Há tempos, comprei a edição em CD. Nunca lhe removi o plástico. Talvez o faça hoje, para lembrar o último estertor da puberdade e explorar privadamente a morte do homem. Pena? Apenas que ele tenha partido tarde. Falecera ele em 1965, por exemplo, e o mundo não chegaria a conhecer The Madcap Laughs, uma perda tolerável, nem os Pink Floyd, uma calamidade insuportável, que o primeiro álbum não redime, e cujas consequências o mundo ainda sofre.
Nota: No vídeo, a prova dos efeitos, a longo prazo, dos fungos e das cantilenas de Roger Waters. No áudio, uma das lost tracks de Barrett, recuperada em Opel, o disco, não o carro da Azambuja. Como se pode perceber, lost é o termo.